VOLTEI PARA FICAR?

Há uma década me retirei das redes sociais – ou mídias sociais, como parte da intelligentsia passou a chamar após disparar seu raio legitimador.

Mantenho presença residual em algumas delas por questões profissionais: uma foto (quando obrigatória), um nome (de preferência, um que não me identifique facilmente) e outros dados básicos.

Evito, a todo custo, seguir ou ser seguido.

Posso dizer que minha estratégia tem sido eficaz em parte. Meus amigos off-line têm pouco ou nenhum conhecimento da minha presença on-line e, portanto, aprenderam que não devem me buscar nesses canais, nem partir do princípio de que sei do que está acontecendo por lá. Ou seja, não iniciam uma conversa comigo sobre os últimos memes sem o devido prólogo.

Por isso, às vezes sou visto como misterioso, mas só por aqueles que de fato não convivem comigo, e com quem conscientemente abri mão de fazer contato quando fiz a tal escolha.

Poderia enumerar aqui as vantagens dessa escolha. Muitas delas são óbvias, até porque os usuários dessas redes não só experimentam agruras, como fazem questão, eles sim, de enumerá-las nas próprias redes. Não preciso ter o trabalho de convencê-los do lado positivo da minha decisão. Tampouco tenho o ímpeto de fazer com que me sigam nela. E nisso reside meu ponto.

Seguir é acompanhar. Até aí, uma acepção clássica, isentona, quase inocente. Mas, quando o verbo deriva para um substantivo, a barra pesa. Tornar-se seguidor tem a ver com perseguir, espreitar, estar no encalço ou pior, deixar-se guiar. Verbos que nunca quis conjugar na primeira pessoa, uma questão que nunca consegui tratar direito em duas décadas de psicanálise.

Mas eu realmente me protegi desse verbo?

Tomei essa decisão de abandonar as redes no contexto das primeiras movimentações decorrentes dos protestos de 2013. Observar as pessoas, destilando ódio contra os “amigos” – termo ainda ditado pelo Facebook na época, e que não à toa caiu em desuso – fez com que reavaliasse minha real vontade e necessidade de estar ali, e me retirasse em meio ao resultado do longínquo pleito presidencial de 2014. Foi como olhar o mar retroceder na praia antes de um tsunami, e sair correndo.

O tsunami chegou. E arrastou todos, aqueles que correram ou os que ficaram na praia, distraídos ou observando, incrédulos, sua aproximação. Ter me afastado do “ponto de impacto” pode ter me poupado de muito sofrimento e desgosto, mas não impediu que eu sentisse a correnteza me carregar quando o abrigo que encontrei ruiu como todo o resto.

É um exercício infrutífero tentar saber se teria sofrido mais ou menos caso tivesse permanecido onde estava. Mas aprendi, antes de ser modinha, que julgar seu eu de outrora é uma furada. Considero minha escolha acertada, lembrando que ela foi fundamentada em autoconhecimento e corroborada, posteriormente, por fatos irrefutáveis e, naquele momento, ainda inimagináveis.

A questão agora é outra: por quanto tempo devo permanecer fiel a essa minha decisão?

Atualmente, os conteúdos dessas plataformas permeiam toda a comunicação, quer o indivíduo esteja formalmente nelas ou não. Isso está claro pelas minhas citações neste texto.

Ter ficado de fora esse tempo todo, contudo, me fez ver mais claramente a existência das bolhas entre os grupos, e também como não se deixar capturar por elas. Por isso, permanecer de fora cada vez mais soa como o medo infundado daquele pré-adolescente que não aprende a andar de bicicleta, mesmo já alcançando o chão com os pés.

 

 

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